Membro da comunidade Canção
Nova há treze anos e autor de quatro
livros,
Márcio Mendes Chaves,
em entrevista coletiva para o
Sistema Canção Nova de Comunicação,
fala sobre a importância da oração
para a cura e a libertação na vida
de todas as pessoas.
Para ele, cura e libertação estão
intimamente ligadas entre si porque
fazem parte de um mesmo carisma. O
autor enfatiza que nenhum cristão
está impedido de suplicar a Deus a
libertação para si próprio ou para
alguém que ame, mas ele também
lembra que, sozinha, a pessoa não se
liberta; é preciso que ela,
realmente, tenha esta vontade, pois
só assim Deus poderá libertá-la.
Apaixonado por cinema, música e
literatura, o autor desenvolve um
trabalho de promoção da dignidade
humana e do relacionamento com Deus,
como meios eficazes para o
desenvolvimento de uma saúde pessoal
e da construção de uma vida feliz,
por meio de seminários, congressos e
aprofundamentos de espiritualidade
em todo o país.
cancaonova.com O que é cura e
libertação?
Márcio
Mendes: A cura e a libertação
estão intimamente ligadas entre si
porque fazem parte de um mesmo
carisma. Para ser mais claro, vale a
pena apresentar alguns exemplos: se
uma pessoa tem cirrose hepática ou
algum tipo de complicação, como um
câncer que foi desenvolvido pela
ingestão de álcool, não adianta
simplesmente curá-la se ela não for
libertada do vício ou da
enfermidade, que é o alcoolismo. As
duas coisas estão intimamente
ligadas. Não adianta suprimir os
sintomas se a raiz do mal continua
ali presente, porque ele
[alcoolismo] vai voltar.
O mesmo acontece com relação à
libertação espiritual. Às vezes, o
que originava uma manifestação de
opressão em uma pessoa – e requeria
da parte de Deus uma libertação para
ela –, era um ódio profundo dentro
do seu coração, originário de uma
mágoa causada numa determinada etapa
da vida dela. Outras vezes, as
pessoas trazem algumas doenças que
são manifestações daquilo que elas
vivem no seu interior, na sua alma,
no seu coração, e nisso, nós podemos
ter, como exemplo prático, a falta
de perdão. Quando uma pessoa nutre
dentro de si a falta de perdão e
cultiva o rancor, a mágoa e o
ressentimento, ela acaba somatizando
e isso se transforma em verdadeiras
enfermidades como úlceras, dores de
estômago, dores de cabeça, pesadelos
e alucinações. De forma que cura e
libertação são duas facetas de um
mesmo carisma.
cancaonova.com: Cura
e milagre têm algo em comum?
Márcio Mendes: A cura pode
ser relacionada com o milagre.
Quando nós falamos de milagre, temos
um conceito diferente do que a
Bíblia propõe. Esta chama de milagre
toda ação de Deus na vida da pessoa,
nos relacionamentos e na natureza
dela, o que acaba gerando um evento
espiritual extraordinário.
Para algumas pessoas, um milagre é
simplesmente um nascer do sol. O
fato de redescobrir e maravilhar-se
– porque milagre quer dizer
maravilha – com um simples nascer do
sol pode ser um evento espiritual
que transforma toda a história de
uma pessoa.
Quando usamos a expressão milagre,
queremos, muitas vezes, dizer que é
algo que a ciência não consegue
explicar. A ciência detecta e
confirma que existiu ali um evento
inexplicável, mas não sabe dar uma
resposta para ele.
Uma intervenção extraordinária de
Deus nem sempre está ligada à cura
física. A cura pode ser milagrosa.
Hoje, por exemplo, uma cura completa
da AIDS é algo milagroso, porque não
há uma resposta na ciência para essa
doença. O dia em que haver cura
[para AIDS] deixará de ser algo
milagroso e passará a ser
simplesmente uma cura.
cancaonova.com: Qual
a relação entre libertação e
exorcismo?
Márcio Mendes: Todo exorcismo
é uma libertação, mas nem toda
libertação é um exorcismo. Quando
falamos de exorcismo, estamos
falando dos atos oficiais da Igreja,
dentro de uma liturgia própria para
lançar fora uma entidade maligna que
tenha se apropriado de uma pessoa.
A libertação é um processo que, às
vezes, culmina num exorcismo. Quando
falamos sobre a
manifestação maligna na vida de uma
pessoa, estamos
falando da realidade de todos, pois
todos nós enfrentamos influências
malignas. A primeira delas se chama
tentação e requer libertação. Mas há
também outros graus de alienação:
Obsessão: A pessoa não
consegue mais se desvencilhar de uma
idéia, pois a vontade dela já está
comprometida, então é preciso uma
intervenção espiritual;
Opressão: Neste caso, as
pessoas já têm uma manifestação de
caráter físico como dores, falsas
enfermidades, algumas ouvem vozes,
têm algum tipo de alucinação e a
libertação também precisa atuar aí;
Semipossessão: Um grau mais
denso, mais pesado de opressão até
chegar na possessão;
Possessão: A única pessoa que
pode fazer uma oração nesse caso é o
bispo ou, não o sendo, esta pode ser
feita por um ministro ordenado e
competente, designado por um bispo.
Assim, todo exorcismo é uma
libertação, mas nem toda libertação
é um exorcismo. A libertação é,
antes de tudo, um dom de Deus, mas
Ele conta com a nossa colaboração. A
pessoa, sozinha, não se liberta, mas
sem a vontade dela, Deus também não
pode libertá-la.
cancaonova.com: O que
a Igreja fala a respeito da cura e
libertação?
Márcio Mendes: Cura e
libertação são assuntos que dizem
respeito às coisas de Deus, à Igreja
e, portanto, também à Teologia. A
Sagrada Escritura, principalmente no
Novo Testamento, dá testemunho
constante de que, pela oração, nós
podemos chegar à cura e à libertação
das pessoas, porque quem cura é
Deus, e para Ele todas as coisas são
possíveis. Essa é a nossa fé, essa é
a fé da Igreja. Cada vez que alguém
se aproxima de Deus, começa um
processo de cura e libertação,
porque ninguém se aproxima da
Verdade – sem ser por ela iluminado
–, pois Deus é a Verdade. Onde ela
se faz presente, as trevas não
permanecem. Isso é a libertação.
A doença também é uma força de
morte, por isso, nós percebemos que
pela oração e pela aproximação
verdadeira de Deus, no contato que
nós temos com Ele na oração, um
processo de cura e libertação
acontece na nossa vida. Não deixamos
por isso de sofrer, mesmo com as
conseqüências do tempo, mas tem mais
saúde quem reza mais. Eu não tenho
dúvidas disso. A Igreja percebe
isso, tanto que, oficialmente, ela
oferece os sacramentos também como
forma de cura. Se há uma oração
excelente para a cura – são os
sacramentos da reconciliação e da
confissão dos nossos pecados, porque
o perdão é dom de Deus, é graça.
Outros sacramentos de cura e
libertação são a Eucaristia e a
unção dos enfermos, conhecida como
extrema-unção. Na Eucaristia, o
Corpo de Jesus se faz presente no
nosso. A extrema-unção é um
sacramento de cura, pois o sacerdote
vai até a pessoa para pedir a Deus a
cura e o restabelecimento dela.
Se você tem uma enfermidade mais
grave, e precisa passar por uma
cirurgia ou alguma coisa que coloque
em risco a sua vida, você pode
procurar um sacerdote e ele vai
ministrar esse sacramento para você,
que é de cura e libertação. A Igreja
enxerga com propriedade a cura e a
libertação, assume-as como
responsabilidade pessoal porque foi
uma incumbência, uma missão que
Jesus lhe deu de ir e expulsar o mal
e toda espécie de enfermidade.
cancaonova.com: As
pessoas podem pedir a libertação
para si mesmas?
Márcio
Mendes: Nenhum cristão está
impedido de suplicar a Deus a
libertação para si próprio ou para
alguém que ame. Talvez, ao suplicar
a graça da libertação haja algum
fator que identifique o grau de
alienação da pessoa e isso requeira
um exorcismo. Por essa razão, se
houver um leigo rezando por alguém e
descobrir que há esta necessidade,
ele deve levar este conhecimento ao
padre ou ao bispo e, a partir daí, a
Igreja local vai tomar as devidas
providências. O fiel cristão, – pelo
Batismo –, não só tem o direito, mas
o dever de rezar pela cura de todas
as pessoas, e de levar a Palavra de
Deus, proclamada pelo Espírito
Santo, para transformar a vida delas