O silêncio de Deus
Paróquia Rainha dos Apóstolos
No princípio, nada existia, só havia o calor do amor trinitário. Deste amor houve uma explosão, e o universo, do nada, passou a se expandir, e até hoje não interrompeu o seu processo infinito de expansão. O amor de Deus atingiu o infinito e se manifestou na criação.
No princípio só havia o caos, o silêncio, porém em Deus o silêncio era eloqüente. Da sua voz tudo passou a tomar forma e a ter a sua beleza, porém a preciosidade de sua obra se deu no momento em que ele criou alguém feito à sua imagem e semelhança. Não criou uma nova divindade, mas a pessoa humana, e deu-lhe maior dignidade dentre os seres criados. Este ser feito da terra é muito maior que os elementos nela contidos.
O homem foi feito do barro, para que desta forma pudesse ser partícipe da natureza criada por Deus e assim poder viver em comunhão com ela. Ele não é diferente, é apenas superior. Ele saiu da terra, porém é superior a ela, se tornou seu garante para ornamentá-la e elevá-la a um perene louvor ao criador. Saiu da terra, mas a transcende, porque quem o fez o dotou de dignidade, o fez participar da sua divindade (Sl 8).
Com o pecado, o ser humano tomou consciência de sua grandeza e de sua capacidade. Viu que era superior a toda criação, porém uma coisa lhe faltava, a onipotência e a onisciência. Ele não é o criador, mas foi criado por amor e para governar a criação. O seu desejo de ser onipotente o conduziu a um verdadeiro fracasso. Ele percebeu que perdeu tudo, até mesmo a dignidade de filho.
Deus não se conformou com essa situação, com a sua inferiorização, porque ele o dignificou para cuidar da sua obra. Contudo, a misericórdia infinita venceu e Deus tirou o jugo que pesava sobre seus ombros. Ele não quis ver mais a sua imagem humilhada no rosto decaído do homem. Por longa data resolveu preparar uma saída para restaurar a sua imagem e devolver-lhe a dignidade. Muitos foram chamados para formar um novo povo, para traçar um novo caminho. Fez várias alianças, mas o povo marcado pelo desânimo, pela fraqueza, não conseguiu ser fiel, mas ele foi fiel. Não bastasse isso, na plenitude dos tempos, enviou seu próprio Filho com o mesmo rosto do homem decaído, porém, o de Cristo, é um rosto transfigurado, não mais marcado pelo pecado.
O Filho porta consigo a “boa notícia” do Pai: “Que todos sejam um como eu e o Pai somos um”. Se ele diz que é para que sejamos um, na trindade, é porque na humanidade não havia unidade e sim a fragmentação. Somente Cristo poderia fazer com que o homem decaído pudesse novamente encontrar-se com seu criador, pudesse ter sua cabeça novamente erguida, e desta forma pudesse, como antes, amá-lo e adorá-lo. Tudo isso deixou de ser natural, agora é algo a ser conquistado.
Olhando para as atitudes de Deus, descobrimos quem ele é. “Deus é amor”, é bondade, é acolhida. A cada dia ele se oferece no Filho para que a salvação seja eterna, e quem conseguir entender o seu gesto poderá experimentar o seu amor; poderá falar de amigo para amigo; poderá olhar em seus olhos sem medo.
Quem quiser experimentar tal proposta poderá fazê-la mediante a escuta da sua Palavra e do olhar contemplativo, deixando com que o silêncio de Deus possa inundar o seu ser. Somente na oração silenciosa do coração é possível entender o silêncio de Deus.
Se quisermos chegar até o criador, devemos olhar para o Filho. Na transfiguração ele deixa bem claro: “Este é meu Filho muito amado, escutai o que ele diz”. Nós não só devemos escutar sua Palavra, mas também devemos assimilar o seu modo de agir, de rezar.
Os evangelhos mostram que Jesus tinha o hábito de rezar no silêncio da noite, na montanha. Ficava a sós com o Pai para contemplar as estrelas, sentir a brisa suave e principalmente estar diante do Pai para colocar os anseios e os sofrimentos do povo, para revigorar suas energias e com entusiasmo anunciar a boa nova (Mt 14,22-36).
Para contemplarmos a Cristo e o Pai, devemos deixar com que o silêncio invada toda a nossa alma. Devemos acalmar os sentidos, esvaziar os pensamentos e sentir o frescor do vento, a luz do sol, o gorjeio dos pássaros; enfim, sentir a voz da natureza que louva seu Senhor. Com ela também quero louvá-lo. Por isso não quero dizer nada, só sentir, para que ele se revele como melhor lhe aprouver.